A criança joga (brinca) para expressar agressão, adquirir experiência, controlar ansiedades, estabelecer contactos sociais como integração da personalidade e por prazer.” 
Winnicott

Encontrando-nos no final do 1º período letivo, repetem-se as dificuldades dos alunos em assistir tranquilos ao desenrolar das aulas, ministradas pelos professores, em quem, por sua vez, é delegado o cumprimento de metas curriculares.

Multiplicam-se os recados nas cadernetas para os encarregados de educação, os quais, na sua vez, entre pressionarem os seus educandos para se portarem bem e procurarem ajudas junto de técnicos diversos na área da educação (explicadores, psicólogos da educação) ou da saúde (psicólogos clínicos e da saúde, médicos de família, pediatras, neuropediatras e pedopsiquiatras) tentam dar rumo no sucesso escolar.

Multiplicam-se as intervenções técnicas, culminando frequentemente a atitude médica em medicar com o objetivo de acalmar os alunos e melhorar a sua atenção, com resultados rápidos.

Sendo Pedopsiquiatra, médica especialista na área da Saúde Mental e Psiquiatria dos 0 aos 18 anos, assisto a este ciclo, ano após ano.

  • Nem tudo é défice de atenção ou hiperatividade do aluno;
  • nem todo o défice de atenção, com ou sem hiperatividade, tem o mesmo tratamento;
  • e muito menos, nem todo o tratamento pode apoiar-se em fármacos com a ambição do problema ficar resolvido, como se duma infeção bacteriana se tratasse, com o antibiótico adequado.

Ainda, quando o médico avalia necessidade de medicação tem que ter em consideração que são fármacos com acção no Sistema Nervoso Central (cérebro) , estando a lidar-se com crianças, indivíduos que em Portugal já têm uma esperança média de vida acima dos 80 anos (Instituto Nacional de Estatística, setembro de 2018), que se pretende que seja de qualidade.

Os professores podem e devem referenciar as crianças que os inquietam, os pais devem procurar opinião especializada caso sintam necessidade.

A minha identidade de Pedopsiquiatra conduz-me à responsabilidade de entender a criança ou o jovem na sua integridade, avaliando a sua história clínica desde a gravidez, nascimento, desenvolvimento biológico, psicológico e social. Tenho ainda que ter em consideração o ambiente familiar e escolar em que está inserido. Só assim se consegue determinar a atitude clínica a ter perante a situação específica, sempre com cooperação da família, frequentemente com envolvimento da escola, tendo como último recurso a medicação.
Por sua vez, a medicação pode ser importante num momento específico do processo terapêutico, mas nunca pode ser considerada como o que vai curar. A medicação por si apenas modula o comportamento, atenua os sintomas e frequentemente de forma temporária, havendo contenção das emoções e não sua gestão e desenvolvimento.

Se na Medicina poucas coisas são o que parecem, a Pedopsiquiatria é a especialidade médica desse paradigma, com conhecimento para integrar o que é visível e o que parece (sintoma/problema observável na criança) com a verdadeira causa do sintoma, quantas vezes está exterior à criança, que passa imperceptível a outras especialidades médicas, as quais são, por formação e sua natureza, organicistas e focalizadas fundamentalmente no indivíduo.

É nesta avaliação globalizante especifica da Pedopsiquiatria (modelo bio-psico-social e familiar) que se define o verdadeiro alvo de atuação médica.
Assim, perante os conhecimentos que adquire ao longo da sua formação na especialidade, resta ao Pedopsiquiatra a sua prática ética.


Dr.ª Elsa Martins
Médica Pedopsiquiatra